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Manual da dona de casa moderna

por Marina Santa Helena em January 15th, 2008

Consumida pelo ócio no sábado chuvoso, liguei a TV e comecei a me imbecilizar como se não houvesse amanhã. Zapeando por ali, entre um cochilo e outro, passei pelo Caldeirão do Huck, pelas vendas no polishop, tive visões de bundas aleatórias, ouvi algo sobre uma entrevista com sambistas dos Unidos de sei-lá-o-que, apareceram mais bundas e acabei caindo em um documentário sobre a vida animal.

África, América do Sul, Pólo Norte…Celso Freitas parecia não fazer distinção alguma entre os continentes e, na mesma frase, versava livremente sobre as características do elefante africano e do urso polar. Peguei no sono de verdade.

Acordei meio babada, com uma voz estridente anunciando que o Coisas de Mulher estava para começar. Ainda de olhos fechados, pude compreender que uma tal Nanda Bezerra (a da voz estridente) e sua trupe de amigas intelectuais, comandavam o programa e faziam questão de ressaltar a cada frase:

Estamos aqui diretamente de Londres. LONDRES! Eu disse Londres, entenderam?

L-O-N-D-R-E-S, minha gente. Aquela terra linda, do fish and chips, do povo orelhudo,a mãe dos hooligans. Não é para quem quer, é para quem pode.

O sono era grande, mas o lado tosquista do meu ser falou mais alto e logo acordei completamente. Precisava comprovar se aquilo era real ou era tudo fruto da minha imaginação.

mocréias

É Europa, é LONDRES, é de catiguria, é o Coisas de Mulher, porra! Olha só que phynas.

Era real. Era bizarro. Era uma espécie de Saia Justa evangélico. Pronto, agora eu precisava assistir até o fim para ver até onde ia a decadência humana. Fui pegar um café.

Como o próprio nome diz, o Coisas de Mulher é um programa que faz reflexões profundas sobre temas super-vanguarda do universo das Amélias feminino. A infame Nanda Bezerra solta um agudo e explica melhor:

Este sábado o tema de nossa reflexão é: O que não é apropriado para uma mulher?

E aí começou toda uma sessão de exorcismo sobre o que uma mulher pode ou não fazer:

Falar palavrão? Nuuunca.

Falar da vida pessoal? Jamais.

Se meter em conversa de homem? Imagina!

Demonstrar ser mais inteligente que seu parceiro? Melhor ficar calada.

Maquiagem forte? Never.

Beber? Nem comento.

Então, meu amor, se você mora no Brasil; manda para dentro aquela cerveja com espetinho do boteco da esquina; conversa sobre negócios, carros ou política melhor que qualquer homem e ainda sai bem loca para se acabar na pista de dança, é melhor se matar:

VOCÊ NÃO É DIGNA DE FAZER PARTE DO GÊNERO FEMININO!

Ou seja, para manter a feminilidade, é melhor você ficar quietinha ali no canto da sala, entre a estátua das ninfas de Kalypso e seu novo abajur Tiffany.

Faça cara de paisagem sempre. E, num arroubo de ousadia, aprenda umas receitas de bolo, a preparar um whisky pro marido, a cuidar do jardim.

Isso, sim, é que é ter inteligêntsia, fineza, classe, chiquêza…

housewife

 

Quem sabe um dia você não chega no nível da Nanda Bezerra e sua trupe de mocréias amigas mal comidas.

 

Ctrl+C, Ctrl+V

por Marina Santa Helena em November 27th, 2007

No início do mês, quem passava pela altura do nº 5700 da Av. Santo Amaro, em São Paulo se deparou com uma gritante mudança de paisagem. O canteiro central estava vazio e causou furor a possibilidade de alguém haver roubado a delicada estátua do Borba Gato que ficava no local.

Teria sido ela abduzida pelos incas venusianos? Seriam os sem-terra os culpados pelo seqüestro? Estariam estátuas de bandeirantes mocorongos em alta no mercado negro?

Não. Foi tudo uma pegadinha. Ou melhor um gesto artístico.

O culpado foi o Sesc Santo Amaro, que instalou telas gigantescas no local, com imagens em perspectiva da visão que um transeunte teria da Avenida, se a estátua não existisse. Tudo para divulgar uma exposição sobre o artista Julio Guerra, autor do monumento mais (com o perdão da infâmia) gatinho do Estado.

borbagato

Homenagem à Julio Guerra livra via pública de sua escultura. De uma sutileza assim assim….

 

 

Louvável e de incontável valor para a paisagem urbana, eu aplaudiria de pé a ação…

myoung1

…caso não fosse um arremedo delavado da obra do artista plástico sul coreano Myoung Ho Lee, que já faz esse truque há um bom tempo.

Ele consegue criar novas paisagens e, ao mesmo tempo, envolver a obra em questões como degradação ambiental e poluição visual.

myoung2

Acho que o Myoung devia sair por aí espalhando telas pela feiúra do mundo. Quem sabe ele não chegava a cobrir o Menino Jesus de Marituba…o Padre Cícero…a Daslu…ou o próprio Sesc Santo Amaro.